sexta-feira, 26 de agosto de 2016

DO "TABOR" À MISSÃO"

Adeus, Ciorani! Terra abençoada e acolhedora! Adeus, Scala, Jerusalém Redentorista! Materdomini, embebecida dos encantos de Geraldo Majela,  que graça conhecer-te! Nápoles, tão antiga e sempre nova; Marianella, “útero” social que gerou um Santo Doutor; oh, “velho mundo”, que guardas relíquias de guerras e da paz, dos reis e dos santos! Nunca mais os verei... Mas por ser assim, os levarei na memória, porque também sou esta história, sou parte da humanidade antiga e continuo a história humana, passando no presente como ponte para o futuro.
Passar por aqui é reconhecer que nossa existência nesse mundo é apenas um minúsculo momento de uma realidade. Bilhões de seres humanos já existiram, muitos deles deixaram seus rastos na história. Aqui vemos isso mais concretamente nas ruínas, nos palácios, nas igrejas esplendorosas, nas cidades... Cada pedra, desse lugar carrega em si “presenças” que nos emocionam.
Que sente um homem cansado do trabalho no campo nos minutos posteriores ao fim da jornada? Fisionomia tensa, sentimentos pesados, talvez desesperançado, desejoso de chegar em casa. Assim eu me encontrava quando cheguei na Itália há 20 dias. Não sabia o que encontraria, porém, não tinha dúvidas de que um momento novo e rico estria começando. Passaram-se os dias, muitas experiências me refizeram. E para entender o antes e o depois, se quiseres saber como me sinto agora, imagine aquele mesmo homem depois de ter chegado em casa e encontrado sua família, banhado o corpo longamente e sentindo-se diante da mesa , serve-se e reabastece as energias na presença dos filhos e da esposa. Sorrindo, conta do seu trabalho, ouve as novidades, fala do amanhã. É o seu momento de celebrar a vida e degustar as alegrias proporcionadas pela convivência com os seus. Ali retoma o sentido do trabalho, “re-significa” o sofrimento experimentado. Sabe aquele homem que o sol que recebeu, o peso do instrumento de trabalho vale a pena porque dá mais vida aos seus e impulsiona a continuidade da vida. Por isso, ele se levanta e o seu primeiro gesto e pensamento é agradecer ao seu Deus por acordar para a vida e a Ele consagrar suas atividades.
Sinto-me chegando ao fim da madrugada de descanso, daqui há pouco o sol nascerá e o sol trará um novo dia. É tempo de preparar a mente e o coração para mais uma jornada de trabalho, de sol, de suor, de esforço contínuo, de sofrer... tempo para construir mais uma página da missão. Alimentado pelo carinho dos confrades, retomo o trabalho do ponto exato de onde terminei no dia de “ontem”. Porém, meus estímulos, minhas energias, motivação e projetos estão renovados. E assim, com novo sentido para o dia, vou exercer minha missão.
A experiência de ”Tabor” que tivemos, fez-me sentir mais seguro e esperançoso. O que vivenciamos nesses dias nos transformou e nos deu novo vigor. Sei que nunca mais voltarei a esses lugares sagrados, porém, confio que Deus sempre me preparará outros momentos de revelação do seu grande amor. Preparo-me para viver mais uma jornada na missão do Redentor, animado por Ele como animador ou provocador das vocações. Que a Mãe Aparecida continue animando nossos trabalhos e indicando os caminhos dos campos a serem preparados para receberem as sementes do Reino. Oxalá, tenhamos corações disponíveis e abertos para receberem o chamado de Deus e responderem com audácia e generosidade.

Adeus, Ciorani, adeus!

FINALIZANDO NOSSA PEREGRINAÇÃO REDENTORISTA

Estamos finalizando a nossa Peregrinação e Curso de Espiritualidade Redentorista. O clima é de "saudade". Embora esta palavra só exista na língua Portuguesa, o sentimento existe em todos nós.
 Na manhã de hoje houve uma avaliação bem intensa. Para todos está terminando um dos momentos mais importantes da vida. Não apenas pela cultura e as informações que recebemos, mas especialmente porque durantes esses 20 dias formamos uma comunidade que carrega um objetivo único: ser missionário redentorista, isto é, tornar-se para os mais abandonados e a todos os homens e mulheres, presença viva do Redentor. O coração de todos os 23 participantes expressa gratidão e alegria pelo tempo de fecundidade espiritual. Unânimes, voltam todos revigorados e esperançosos para continuar as atividades missionárias em suas respectivas unidades lationamericanas.
Nesta tarde estamos num momento de retiro final, momento de concluir esse tempo fazendo uma síntese pessoal das experiências que vivemos. É aquele momento de quietude e contemplação mais apuradas, porque sabemos que jamais voltaremos à esses lugares, a essas paisagens, não mais seremos o mesmo grupo. Cada um voltará para o seu país e todas as experiências ficarão na memória do coração. O "tempo da Graça" aconteceu e nos alimentou. A generosidade de Deus pudemos experimentar.
O coração épura expressão de gratidão. A Deus, que nos propiciou esses momentos de "Tabor". À Congregação, que através do Secretariado de Espiritualidade cuida da formação espiritual dos seus membros e oferece anualmente dois momento (um em Inglês e Italiano e outro em Português e Espanhol). À Província Redentorista de São Paulo, na pessoa do Pe. Rogério Gomes, Superior Provincial, que convidou-me para participar neste ano, juntamente com o Pe. Chicão, Pe. Carlos Artur e Ir. Santana. Aos coordenadores do Curso Pe. Piotr e Pe. Simón, hábeis e mestres eficientes e eficazes, que com profunda generosidade nos acompanharam, tiveram paciência com nossas faltas e se empenharam e fazer desses momentos uma profunda experiência de vida Redentorista. Aos 22 companheiros que comigo caminharam nestes dias, confrades animados e audazes, gente de coração aberto, com suas experiências riquíssimas que me ajudaram a ser mais redentorista. Aos muitos homens e mulheres que serviram-nos durante este tempo na cozinha, na direção do ônibus, oferecendo-nos as informações sobre a história dos lugares sagrados, aos que rezaram por nós...
No início da noite, teremos a Eucaristia de encerramento. Depositaremos no coração do Pai tudo isso que vivemos; entregaremos as realidades que vamos encontrar na volta para casa; as pessoas por quem rezamos diariamente; nossos projetos missionários; as vocações; o povo que nos pede orações.
Deus seja louvado pela vida! Deus seja louvado porque hoje somos fazemos a história de Redenção continuada por nossos antecessores e, não por nossos méritos, mas pela Graça de Deus, herdamos as riquezas de nossos fundadores e com coração generoso desejamos mantermos-nos a caminho com Jesus Cristo Redentor.
E se até hoje estamos firmes, foi porque Deus atendeu às preces que fizemos e que pela intercessão da Mãe de Deus, obtivemos as graças necessárias. Só com nossas forças não teríamos chegado até aqui. Mãe do Perpétuo Socorro, segure-nos em teus braços. Nos momentos em que fugirmos da presença do teu Filho, corra e nos alcance, pegue-nos em teus braços, porque, como crianças, tantas vezes pensamos saber o caminho e caímos nas ciladas dos "caçadores" que nos impedem de servir ao Reino do teu Filho Jesus. Dai a todos nós a audácia missionária,  a simplicidades nas ações, o ouvido atento aos desejos de Deus, como tu sempre o fizeste. Amem!

EM PAGANI, ENCONTRAMOS AFONSO!



Peregrinação a Pagani, um lugar absolutamente “espiritual”. Mais especificamente a Basílica de Santo Afonso Maria de Ligório e o convento redentorista que guarda preciosos objetos de valor afetivo incomensurável. 
Aqui, uma “acolhida Redentorista”. Você sabe o que é isso? Basta chegar em sua casa ou num lugar que você muito gosta de estar e tudo lhe parece familiar, se parece com você.  Isso eu chamo de um lugar redentorista, porque te acalma, te recebe de braços abertos, te entrega a casa, te dá um abraço sorridente e cuida de você. Isso é uma graça! Graça de Deus!
O momento mais emocionante foi o momento da Eucaristia diante do túmulo onde está o fundador da Congregação. Ali, diante do altar da capela lateral da Basílica de Santo Afonso, uma rápida retrospectiva de toda a minha vida veio espontânea: o lugar onde eu nasci, a devoção a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, padroeira da Congregação (e eu nunca esperava pertencer a esse Instituto); as novenas anuais que rezávamos com a oração diária de Santo Afonso (ele me conduziu até aqui);  minhas lutas para entrar na Congregação, os anos de formação inicial, meus trabalhos no Nordeste, minha  volta à Província; a ordenação presbiteral; as humilhações que passei; meus pecados... e finalmente os últimos dias do meu pai no hospital em Palmeira dos Índios. Em visita em seu leito, ele disse: “na noite passada eu recebi a visita de um homem, era Santo Afonso...  ele esteve aqui”. Naquele momento eu achava que era um delírio de alguém atormentado pela enfermidade. Poderia ser. Mas hoje, posso ler este momento como presença constante de Deus. É aquela leitura que a gente faz e descobre as pegadas de Deus na história da gente e dos outros. Pois lembrei-me do que disse São João Bosco: quando um filho sai para o Seminário, o próprio Jesus fica no lugar dele na família. Impossibilitado de estar todo tempo ao lado do meu pai, o próprio Afonso o confortou em seus últimos dias. Na presença de Santo Afonso, mas especialmente na presença do Santíssimo Sacramento, agradeci pela vida do meu pai.
A visita continuou no Convento de Pagani, lugar onde Afonso viveu os seus últimos anos. Ali estão seus aposentos, onde recebeu o Ir. Geraldo Majela quando dissolveu-se a infâmia orquestrada por Nerea Cagiano; a janela de onde se vê o Vesúvio (segundo os relatos, Afonso acalmou o vulcão quando ameaçava a vida da população ao seu redor); utensílios de uso pessoal do Bispo Afonso; o púlpito de onde, segundo a história Afonso pediu que um confrade que descesse e interrompesse sua homilia pois este utilizava um jargão muito culto e inacessível ao povo;  o túmulo dos primeiros confrades que moraram naquela residência; o cravo que utilizava para compor suas canções; duas urnas que carregaram seus restos mortais; o caixão no qual foi sepultado... Tudo aponta para Afonso; em tudo, Afonso aponta para Jesus, que aponta para o Pai!

No segundo momento da peregrinação de hoje, parada em Pompeia, que num momento trágico de sua história foi arrasada por seu belo e mortífero vizinho, o vulcão Vesúvio. Não foi possível visitar as ruínas da antiga cidade, o tempo era curto. Mas passamos na atual catedral, rezamos um pouco e voltamos para Ciorani.




CIORANI: ESTUDOS ORAÇÃO... MEMÓRIA AGRADECIDA!

A última semana da Peregrinação e curso de Espiritualidade Redentorista caminha com gosto de “quero mais”. Esse anseio aparece no momento em que fazemos a mesma descoberta que fez Sócrates: “sei que nada sei”. É esse o sentimento que temos diante da riqueza, da grandeza de nossa espiritualidade. Num dado momento da vida, pensamos que nossas experiências, leituras e nossa formação inicial deu-nos o suficiente para sermos Redentoristas. Ledo engano! A atuação redentorista é apenas uma vivência na “ante-sala” da nossa existência onde sentimos o cheiro do alimento saboroso que ainda não está na mesa. Só depois que entramos casa-a-dentro, podemos perceber onde está, como é e qual o sabor daquilo que dará energia e sentido à continuidade da vida.
Os temas estudados e refletidos foram: a música em Santo Afonso (Pe. Saturno e coro alfonsiano), a espiritualidade de São João Neumann (Pe. Simon), a Teologia Moral de Santo Afonso e os desafios da Congregação para o futuro (Pe. Henrique Lopez).
No início da semana pudemos ir em peregrinação a Marianella e Nápoles para conhecermos  os lugares onde viveu Santo Afonso.
Marianella é uma cidade da Grande Nápoles, lugar violento, com muitos problemas sociais. Ali, morava a família de Afonso de Ligório, seus pais e irmãos. Visitamos a casa onde nasceu nosso Fundador, vimos objetos da época, os espaços da casa onde ele nasceu e foi batizado. Tudo parecia tão real!
Em Nápoles, visitamos a face antiga da cidade. Pudemos sentir a Igreja onde está o registro de batismo do futuro advogado e Doutor dos pobres. O pároco nos recebeu com simpatia e nos mostrou o registro original. Depois fomos conhecer outros espaços da cidade que tinha relação com Afonso: a casa onde ele residiu quando estudava em Nápoles, a igreja onde ele entregou aos pés da Virgem Maria a sua espada para nunca mais advogar para os ricos (“deixa o mundo e entrega-te a mim), o centro moderno da cidade e até consegui dar uma escapadinha para ver de perto o Porto de Nápoles enquanto o grupo esperava o ônibus para voltarmos para casa.







quarta-feira, 24 de agosto de 2016

SECRETARIADO DE ESPIRITUALIDADE REDENTORISTA

O Secretariado de Espiritualidade da Congregação Redentorista presta um grandioso serviço à formação permanente dos religiosos. Visitar esses lugares históricos, nos conecta com o centro da nossa opção de vida: o Cristo Redentor. Isso acontece porque as visitas que fazemos nos surpreendem os testemunhos dos nossos santos, eles que viveram buscando em tudo fazer unicamente a vontade de Deus. Cada lugar provoca em nós um sentimento novo, uma visão, uma recordação daquilo que ouvimos dizer sobre o mundo Redentorista. Mais que isso, traz a sede de saber mais e de partilhar o que experimentamos e testemunhamos.
As visitas aos “lugares sagrados” de nossa espiritualidade não tem nada a ver com turismo. Se o fosse, seria ostentação, luxo. Como bem nos propôs desde o início o Pe. Piotr, coordenador do curso, estamos numa “peregrinação”. Peregrinar sugere caminho, saída e chegada, esforço que nos trará transformação interior. O turista deseja obter informações, contemplar a beleza, mas ele não se compromete com o conteúdo que presenciou; ele pode não ter nenhum laço com aquilo que admira, apenas grava em sua câmera as imagens como se fossem troféus que o fará socialmente importante. O peregrino tem atitude e objetivos diferentes: seu caminhar garante que será sempre pessoa em contínua conversão, porque viu, meditou e assimilou o conteúdo do que experimentou e o encarnou em seu ser; ele continua um itinerário espiritual, se alegra pelo caminho que faz; celebra as paisagens que contemplou, as guarda no coração e as assume como parte de sua identidade.
Uma coisa é saber por “ouvi dizer”, porque “está escrito”. Outra experiência maior e mais fecunda acontece quando nossos sentidos tocam os lugares onde tudo começou, onde Deus se revelou, onde a história dessa revelação nos tocou o coração e nos fez mudar de vida. Ali está a casa, o lugar, o objeto, que é testemunha do acontecimento que deu à existência um sentido novo, um caminho diferente. Tocar esses objetos, vê-los, gravá-los na memória e na câmera, é de indizível. Para mim em especial, tocar as coisas é essencial. Talvez eu tenha um pouco da personalidade do nosso amigo Tomé, um dos discípulos de Jesus.

Depois de ver e sentir o que os primeiros membros da Congregação Redentorista viveram, muita coisa muda em nosso caminho. Oxalá seja uma conversão verdadeira!




SANTO AFONSO E O PAPA FRANCISCO

Estivemos visitando Santa Ágata dos Godos, cidade que foi sede da Diocese do Bispo Santo Afonso de Ligório, fundador dos Redentoristas. Chamou a minha atenção a simplicidade como vivia o Bispo Dom Afonso de Ligório. Desde o início ele nunca quis ser Bispo mas aceitou esse encargo unicamente por obediência à Igreja. Foi um pastor zeloso, e como Bispo, trabalhou incansavelmente pelo seu povo. Na catedral em Santa Ágata está até hoje a sua cátedra. Cátedra é uma cadeira especial que fica no centro do presbitério de toda sede de bispado, onde somente o Bispo daquela Diocese pode sentar-se. É também um lugar simbólico, espécie de trono que fica num lugar mais elevado. Senta-se na cátedra quem tem autoridade, isto é, aquele que tem o magistério eclesiástico (o bispo) para ensinar, governar, emitir seus decretos.
Pois bem, as cátedras antigas eram as mais belas e imponentes possíveis. Geralmente cobertas com um baldaquino (uma estrutura belissimamente construída, em quatro colunas que protegiam a cátedra). Afonso de Ligório nunca desejou receber esse tipo de “dignidade”. Por isso a cátedra de sua Diocese era a mais simples possível. Em seu zelo  pastoral, o destaque que Afonso dava não era ao ser humano e aos seus feitos, ou ao poder que ele recebeu, mas centrava todo o foco no Cristo Redentor do mundo.

Esse jeito de governar sua Diocese me faz lembrar o nosso Papa Francisco, que em suas atitudes de simplicidade continua a nadar contra a correnteza do mundo e encantar as pessoas, convertendo seus corações. Nós Redentoristas temos tudo para navegarmos pelo lado contrário da força das águas. Se assim não o somos é porque nunca fomos Redentoristas de verdade como desejou Santo Afonso. Se buscarmos a suntuosidade da modernidade, se nosso modo de ser e agir lembrarem o luxo, o poder, a riqueza, e não a sabedoria e a fecundidade da pobreza e da humildade, é sinal de que estamos indo contra a índole e os objetivos da Congregação. Motivação e ensinamentos para isso, não nos faltam: Santo Afonso, o Papa Francisco e especialmente o Evangelho nos aconselham simplicidade, ousadia, intimidade com Deus e muito trabalho, desgastando a própria vida pela Copiosa Redenção.