domingo, 5 de outubro de 2014

O Clichê que acusa o eleitor

          Em tempos de eleições, posando de honesto, ético e correto, vejo muita gente expressa impropérios sobre o ato de votar. Formadores de opinião, gente religiosa, pessoas estudadas, ouço dizer: "faça a escolha certa na hora de votar..."; "não vote em ladrões..."; "escolha quem é honesto..."; "a situação atual do Brasil é fruto das nossas escolhas..." Esses e outros clichês  você deve ter ouvido ou dito muito nesses últimos dias. A conclusão que se ouve é a seguinte: se há corruptos no governo, a culpa é do eleitor que os escolheu. Para mim, é um "des-serviço" à democracia acusar o eleitor dos desmandos dos políticos.
          Pra começar, pergunto: o que é votar certo? Significa votar em quem? No PT? no PSDB? No PSB...? Quando digo "vote certo", o que mesmo estou querendo dizer? Em quem estou pensando? Se faço tal afirmativa é porque o meu candidato é o mais indicado. Isso é "votar certo"? Ao escolher o candidato que me parece mais honesto, ele está livre de atos de corrupção? Escolher certo é escolher quem?
          Quando digo pra não votar em "ladrões", estou falando apenas daqueles que já foram descobertos? E os que roubam mas não sabemos? Os honestos são aqueles que não tiveram suas atitudes incongruentes anunciadas na mídia?
          Sabemos que é muito difícil saber quem é honesto de verdade, porque quem não o é age na "calada da noite". Sabemos da (des)honestidade de alguém pela mídia que hoje se apresenta como a mais desonesta fonte de informação. Não é possível ter certeza da honestidade de nenhum político. Se somos surpreendidos até com pessoas que convivem conosco, imagine com políticos. Aqueles de quem não temos más notícias, continuam sendo referências para nós, mas não podemos ser ingênuos e acreditar que no sistema em que vivemos é seguro que nosso voto tenha sido dado a um candidato honesto.
          Amigos, as escolhas políticas são subjetivas. O problema é que vemos nossas opções políticas com o senso comum e ingenuidade a ponto de expressar clichês como se fossem verdades inegociáveis. Daí, não sabemos ser justos e imparciais no julgamento das atitudes dos nossos políticos e, nossas avaliações, na maioria das vezes não tem criticidade, seriedade, racionalidade.
          O despautério está na falácia dos clichês irresponsáveis que acusam o eleitor de ser o causador das mazelas do país. Dizem: se há político desonesto, foi porque você o escolheu nas urnas, portanto, você errou o voto e torna-se o responsável pela situação caótica em que vive o país.
          Comete um desserviço à democracia aqueles que bradam acusações contra as escolhas dos eleitores. Ao fazer nossas escolhas, estamos confiando em alguém que irá nos representar no mundo político para que nossas propostas sejam efetivadas e promovam o bem social. Ora, ao escolher um candidato que parece ser honesto e, se após eleito ele for acusado de atos de corrupção, a culpa não é do eleitor, afinal, a má ação é de inteira responsabilidade de quem a pratica.  Aquele que foi escolhido democraticamente tem a obrigação de ser honesto e dedicado ao serviço público. O eleitores não podem escolher os “ficha-sujas”, mas não são culpados pelos atos danosos dos corruptos. Precisamos acabar com esse discurso “fácil” que coloca o fardo pesado nas costas do eleitor. Quem roubou seja punido. 
          Votar é escolher alguém que assumirá uma responsabilidade conosco, o voto é uma aliança, um compromisso entre duas partes: ele se compromete com o bem da comunidade e eu me comprometo em avalia-lo e cobrá-lo pelos serviços que me prometeu. Em outras palavras, o compromisso político é como o casamento: se não houver presença, proximidade e compromissos entre as partes, será dissolvido, quebra-se a relação. É preciso votar e permanecer conectado com o representante eleito. Acontece que, depois das eleições os eleitores esquecem os políticos e esses, sorrateiramente somem do dia-a-dia da população, sem que os eleitores exijam prestação de contas: não cobram, não avaliam suas ações, não procuram saber onde estão, se trabalham, o que fazem. Assim, alguns formadores de opinião, posando como responsáveis pela condução da democracia, bradam clichês conservadores tais como: “o seu voto muda os rumos do país”. Desconfio desses  dizeres. Não é apenas o voto que transforma uma realidade, o que muda é presença ativa, comprometida, a participação na vida política.
           Devemos exigir reparação, precisamos protestar, sugerir, interferir, debater, acompanhar os projetos. Não podemos ficar desligados da política após as eleições. O nosso maior compromisso vem depois da escolha dos nossos candidatos: se não estamos em sintonia com eles, estamos sendo obstáculos à construção e evolução da sociedade. O problema da corrupção e tantos outros não está somente na escolha dos políticos, está na ausência e distância entre os políticos e os eleitores após o pleito. Portanto, nosso compromisso político-eleitoral começa nas urnas e continua a partir de janeiro, quando devemos acompanhar as ações dos nosso governantes. Não nos empolguemos com a beleza da Democracia que nos dá o direito de votar, isso não muda nada, se ficarmos esperando que nossos representantes pensem e ajam por nós.
          Não desmereço os cuidados na escolha de pessoas honestas e adequadas para a tarefa política, mas de nada valerá o esforço sem o constante acompanhamento do eleitor às ações dos políticos eleitos. Quem sabe a partir disso deixemos um pouco de lado o velho clichê que acusa o eleitor dos crimes do políticos corruptos. Oxalá, não sejamos preguiçosos e nos comprometamos com a democracia que exige compromisso dos dois lados. Escolha com responsabilidade, vote sem medo, respeite os que forem eleitos. As escolhas nas urnas podem ser subjetivas, mas as necessidades que temos são concretas e é com estas que devemos lidar, lutar, reivindicar e protestar.
             É fácil dizer ao eleitor que ele errou o voto. Mais honesto e eficaz é comprometer-se com o povo junto com ele cobrar dos políticos a execução dos projetos, protestar por melhorias na educação, na saúde, na cultura, na segurança... Mover-se depois das eleições garante o país mais justo que tanto desejamos.

domingo, 3 de agosto de 2014

O Templo de Salomão

Por Dom Henrique Soares
Só mais uma coisa sobre esse “Templo de Salomão”:
Quando escrevi sobre isto não é porque esteja minimamente preocupado com sua existência ou inauguração! É simplesmente para esclarecer sua total falta de sentido, seu grosseiro erro bíblico e teológico, coisa de quem não compreende absolutamente nada de cristianismo e de Sagrada Escritura.
Seria um erro triste que os católicos se preocupassem com coisas assim ou, pior ainda, sintam alguma “dor de cotovelo” por esse edifício ser maior que a Basílica de Aparecida! Isto seria ridículo! Não se mede a verdade da fé pelas dimensões de edificações! O Reino dos Céus manifesta-se nas coisas pequenas: como um grão de mostarda, como uma semente semeada na terra, como um tiquinho de fermento levedando a massa, como o trigo plantado no campo do mundo, como um tesouro escondido, como um pérola de grande valor um dia encontrada, como uma rede lançada ao mar e pacientemente puxada até a praia do Dia de Cristo…
Nisto se manifesta o Reino: no que é pequeno, no que aos olhos do mundo é fraco e sem importância, no que parece não contar! Por favor, católicos: deixem de lado para sempre o complexo de cristandade, a ilusão de que um dia todo o mundo será cristão, o gosto pelas coisas grandes, a auto-afirmação baseada em outra realidade que não a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo!
Como eu gostaria que nunca perdêssemos de vista o essencial: Cristo, nosso Deus, imolado e ressuscitado, anunciado nas Escrituras Sagradas, celebrado nos sacramentos, oferecido em sacrifício e dado em comunhão para a vida nossa e do mundo inteiro.
Por favor: não confundam a glória do Senhor com a nossa glória nem a grandeza do Senhor com nossas manias de grandeza e saudades de um sistema de cristandade que nunca mais voltará e que em nada é essencial ao cristianismo!
Texto publicado no facebook e transcrito em: http://fidespress.com/brasil/o-templo-de-salomao-por-dom-henrique-soares/ 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

CARTA EM VISTA DAS ELEIÇÕES 2014

“Já lhe foi explicado o que é bom e o que Deus exige de você: é apenas que pratique a justiça e o direito, amar a misericórdia e, com simplicidade, caminhar com Deus” (profeta Miquéias 6, 8).
  
Queridos irmãos e irmãs da nossa arquidiocese,

concluída a Copa do Mundo começa agora, com maior intensidade,a campanha eleitoral em preparação às eleições de outubro. Como pastor dessa Igreja que nós juntos constituímos, me sinto no dever de partilhar com vocês algumas preocupações e propor critérios para a nossa participação como cidadãos/ãs e como cristãos/ãs, nesse importante momento do país.
Há cristãos que ainda pensam que a fé possa ser desligada da realidade concreta. Se nos desinteressamos pelo processo político, corremos o risco de deixar a Política nas mãos dos que não buscam o interesse comum. Como afirmou o papa Francisco: “Apesar de se notar uma maior participação de muitos (cristãos) nos ministérios laicais, esse compromisso (de fé) não se reflete ainda suficientemente na penetração dos valores cristãos no mundo social, político e econômico. Limita-se muitas vezes às tarefas no seio da Igreja, sem um empenho real pela aplicação do Evangelho na transformação da sociedade” (EvangeliiGaudium, n. 102).
Graças a Deus, no caminho ao qual o papa Francisco nos chama, a nossa arquidiocese tem uma longa e bela caminhada que devemos honrar e aprofundar cada vez mais. Desde que, há 50 anos, Dom Helder Câmara chegou como pastor de nossa Igreja arquidiocesana, cada vez é maior o número de cristãos que descobrem que nossa vocação batismal nos chama a ser testemunhas do reino de Deus nesse mundo, pelo esforço de transformá-lo. Já nos anos 60, o papa Paulo VI ensinava que a nossa caridade deve ter uma dimensão política. Concretamente, ela se expressa no cuidado com a coisa pública e em uma educação crítica que nos ajude a compreender melhor a realidade e a discernir nela o que Deus pede de nós como cidadãos e como discípulos de Jesus.
Desde a 2a Conferência do Episcopado Latino-americano em Medellín, Colômbia, (1968), a nossa Igreja se comprometeu a se colocar como serviço à causa da libertação integral de toda a humanidade e de cada pessoa por inteiro (Med 5, 15). Por isso, nossa Igreja desenvolveu diversos setores de pastoral social, cujo objetivo é servir, de maneira especial, a todos os empobrecidos do campo e da cidade. Inseridos na medida do possível, na caminhada dos movimentos sociais, queremos colaborar com a transformação da sociedade.É com esse horizonte que lhes escrevo. Tendo feito algumas observações sobre nossa motivação evangélica e espiritual a partir da qual devemos atuar, sugiro agora algumas considerações sobre o momento atual em que vivemos e proponho algumas pistas concretas de ação para a nossa participação nesse processo eleitoral e mesmo depois.

1 – Um olhar rápido sobre a realidade.

Na análise da conjuntura que a CNBB ofereceu em seu site no mês de abril passado, se afirmava que, para essas próximas eleições, se descortinam duas tendências. Uma é dos que querem garantir a continuidade das conquistas sociais e daquilo que consideram serem mudanças realizadas pelo governo nessa última década. Outra é a das pessoas e candidatos que dizem lutar por mudanças profundas do país e do governo. O importante é discernir se esses políticos que propõem mudanças o fazem a serviço da melhoria de vida da maioria da população ou se pensam apenas neles e na elite social a que pertencem.
Em geral, é a população que sofre no dia a dia as precárias condições dos serviços públicos de saúde, de educação e do transporte inadequado. Em nossas cidades precisamos de mudanças profundas na organização e serviços à sociedade. Não podemos nos iludir de que tais transformações dependam apenas de pessoas a serem eleitas. É a própria organização social e política do Brasil que está em questão.

2 –Critérios que poderão ser úteis para participarmos bem dessas próximas eleições:

1o – Como dizia em recente campanha educativa de várias entidades:“voto não se vende, nem se negocia” ou “voto não tem preço, tem consequência”. O voto deve ser dado conforme nossa consciência e não por qualquer outro motivo, como parentesco, apadrinhamento, interesse de emprego ou qualquer outra razão.
2o - Em um regime de eleições proporcionais como é o caso atualmente, queiramos ou não, o voto é dado em primeiro lugar ao partido do candidato e somente vai para o candidato escolhido, se o partido tiver o necessário quociente eleitoral. Essa é a legislação em vigor. Assim sendo, mais ainda, é importante que a nossa escolha seja consciente por concordarmos com o que aquele partido escolhido por nós propõe como programa para o país.
3o – É comum que as campanhas sejam feitas na base de promessas e propagandas, muitas vezes sedutoras e enganosas. Devemos sempre analisar o interesse dos meios de comunicação de massa e também a vida anterior dos candidatos em questão,para discernir se as promessas feitas agora correspondem ao que ele tem feito e se não se trata de propaganda enganosa.
4o – Nenhum candidato é perfeito ou preenche todas as condições desejáveis. Às vezes, o candidato tem propostas que nos agradam no plano da moral pessoal e institucional. No entanto, está ligado a interesses dos grandes latifundiários na concentração de terra, na oposição à Reforma Agrária e à demarcação de terras indígenas. Apresenta-se como cristão tradicional, mas não tem posição clara em relação à defesa da vida desde sua concepção até seu fim natural. Para resolver o problema da violência urbana, propõe a diminuição da idade penal, é a favor da pena de morte e assim por diante.Temos sempre de julgar no conjunto e não vendo apenas um aspecto.
5o – O cristão vive, pensa e age a partir de sua fé. A fé o conduz a trabalhar pelo bem comum. Isso requer organização e participação cidadã. É preciso discernir os partidos e candidatos a partir dos seus princípios éticos, sociais e religiosos e se estão dispostos a colaborar para o avanço. 

3 – Um olhar para além das eleições de outubro

Devemos participar de forma justa e lúcida nessa campanha, assim como participar corretamente dessas próximas eleições. No entanto, para não sofrermos mais decepções, é importante relativizar esse processo eleitoral e sabermos como nos conduzirmos para além desse momento.Atualmente, a parte mais sadia da sociedade brasileira e dos movimentos sociais têm consciência de que sem uma profunda Reforma Política não conseguiremos vencer a corrupção e estabelecer as bases profundas de uma sociedade mais justa e igualitária. Para isso, a CNBB, OAB e várias outras entidades da sociedade civil propõem um Projeto de Lei de Iniciativa Popular, visando elementos necessários para uma reforma política. Os movimentos sociais organizados preveem para a Semana da Pátria a realização de um Plebiscito Popular no qual o povo brasileiro será consultado se deseja a criação de uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva para a Reforma Política e Soberana.
Como cristãos, devemos apoiar e participar dessas iniciativas que visam a transformação justa da sociedade e da organização do Estado. Como escreveu São Paulo: “Estejam atentos para a maneira como vocês vivem. Não sejam ingênuos, mas pessoas sensatas. Aproveitem bem o tempo, porque esses dias são maus... (Em meio a essa realidade), procurem compreender a vontade do Senhor” (Ef 5, 15 e 17).
Concluo recomendando a leitura da carta dos bispos do Brasil, que se encontra no site da CNBB (www.cnbb.org.br), aprovada na última Assembleia Geral em Aparecida-SP, cujo título é: “PENSANDO O BRASIL: DESAFIOS DIANTE DAS ELEIÇÕES 2014” (Desafios da realidade sociopolítica).

Deus os/as abençoe e os/as ilumine nesse caminho.
  
Dom Antônio Fernando Saburido

Arcebispo de Olinda e Recife

terça-feira, 15 de julho de 2014

O QUE É (OU NÃO) MUSICOTERAPIA?

Flávia Barros Nogueira *
"A musicoterapia é um processo sistemático de intervenção em que o terapeuta ajuda o cliente a promover a saúde utilizando experiências musicais e as relações que se desenvolvem através delas como forças dinâmicas de mudança" (BRUSCIA, 2000 p.22)

Assim, a musicoterapia consiste em um processo sistemático com objetivos e propósito, fundamentada em conhecimentos, organizada e regulada. Portanto, a utilização da música de forma aleatória e não estruturada, ainda que traga benefícios a uma pessoa, não pode ser considerada musicoterapia.
A música não é propriedade do musicoterapeuta (ou do músico), longe disso. A utilização da música é, e deve ser, propriedade da humanidade. Porém, a utilização indiscriminada do termo musicoterapia vai na contramão da consolidação da profissão.
Muitos tem utilizado inadequadamente a palavra musicoterapia para definir qualquer utilização benéfica da música sobre o ser humano. Porém, ainda que o efeito de  atividades musicais tragam benefícios para uma pessoa, chamar tal uso de musicoterapia requer alguns critérios.
O que NÃO é musicoterapia
Como vimos acima, o uso da música pode ser feito por todas as pessoas, assim como usufruir dos seus benefícios (que são muitos). Porém, apesar de benefícios, muitos até recomendáveis, não é musicoterapia:
•             o uso da música para relaxar;
•             fazer aula de música;
•             cantar  uma música ao som de um instrumento;
•             aula de música para pessoas especiais;
•             a audição de uma música no rádio do carro ou em casa;
•             a execução de uma peça instrumental;
•             uso de som ambiente (como em consultórios, elevadores, etc);
•             canto e música em Hospitais;

Assim, apesar dos efeitos positivos que as atividades acima possam proporcionar, não as consideraremos musicoterapia (embora possam fazer parte da musicoterapia).
Quando É musicoterapia
Para  ser considerado musicoterapia, este processo requer  a intervenção de um musicoterapeuta. Segundo Bruscia, quando a música é utilizada sem um musicoterapeuta, o processo não é qualificado como musicoterapia, então, sem um musicoterapeuta, não há musicoterapia.
Porque?
Em um processo musicoterapêutico, do ponto de vista dos procedimentos, a musicoterapia constitui-se de três fases: avaliação diagnóstica, tratamento e avaliação. (BRUSCIA 2000, p. 22) Ainda que outros profissionais possam se identificar com as fases citadas por Bruscia, estas tratam de abordagens específicas, nas quais se utilizam de métodos e técnicas próprias da musicoterapia.O ponto chave observado pelo musicoterapeuta é a relação do indivíduo atendido (paciente,/cliente) com a música. Assim, desde a entrevista inicial até a avaliação final, são especialmente as respostas musicais do indivíduo durante as sessões que fornecem os elementos necessários para o musicoterapeuta traçar objetivos, intervenções, abordagens e alta. Segundo o painel de descrição que estabelece as qualificações do musicoterapeuta (DACUM 2010), entre outras capacitações, o musicoterapeuta deve ser capaz de estabelecer diagnóstico musicoterapêutico e efetuar leitura musicoterapêutica. Assim, o único profissional preparado para compreender todas as fases de um processo musicoterapêutico é o musicoterapeuta.
Quem é o musicoterapeuta
É um profissional de nível superior que passa, na graduação, por quatro anos de faculdade e centenas de horas de estágio. Além da graduação em musicoterapia, há também os cursos de pós graduação que formam especialistas em musicoterapia.
Cursos rápidos (de 80, 40 horas, ou até menos!) e Workshops  não  formam e muito menos qualificam musicoterapeutas!

Nossa profissão é séria e com sólida fundamentação científica. Precisamos batalhar para que o nome Musicoterapia se estabeleça e seja visto com respeito pela sociedade e outros profissionais da saúde.
Então, se você não é um musicoterapeuta e utiliza a música em seu trabalho, tudo bem, continue usando!  Só pedimos, para o bem da profissão musicoterapia, não utilize esse termo, ok?

Referências
BRUSCIA, Kenneth E. Definindo Musicoterapia.Rio de Janeiro: Enelivros, 2000.
DACUM. Painéis de Descrição e Validação. São Paulo: UBAM, 2010.        

* Flávia Nogueira é musicoterapeuta e professora de Música.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Medo do papa Francisco?

Pe. José Antonio de Oliveira
Na revista Ave Maria, do último mês de junho, o Pe. Luís Erlin, cmf, apresenta um tema que nos desperta a atenção. Ele registra uma pesquisa feita nos Estados Unidos sobre a aceitação do papa Francisco naquele País. O resultado é, no mínimo, surpreendente.
De acordo com a pesquisa, aquelas pessoas que têm menos contato com a Igreja católica, como ateus e pessoas de outras religiões, sobretudo não cristãs, “veem o papa como um grande líder, alguém que merece respeito, e acreditam na benevolência de suas intenções”.
Os católicos não praticantes percebem um sinal de esperança e acreditam na possibilidade de mudanças mais profundas na Igreja. Muitas pessoas, inclusive, dizem que voltaram a frequentar a igreja e participar das celebrações. Os católicos ‘praticantes’ estão muito contentes com o Papa.
A gente sabe que uma parte do clero o vê com certa desconfiança. Isso é muito forte na Itália, sobretudo em Roma. Mas, de modo geral, em todos os países – e também nos Estados Unidos, o clero “demonstra esperança” e está muito feliz com o jeito e o testemunho de Francisco.
E aí vem a surpresa. “O setor em que o Papa Francisco mais incomoda, segundo a pesquisa, é justamente aquele em que menos se esperava: os seminários”. A maioria dos seminaristas dos Estados Unidos vê com desconfiança algumas atitudes e pronunciamentos do Papa. Isso se dá de modo especial em relação ao clericalismo, ao carreirismo, à veemência com que o Papa exorta “a não viverem o sacerdócio como um status social ou religioso”. “Alguns seminaristas confessaram ter medo do futuro da Igreja”. Estão preocupados com o futuro da função sacerdotal.
Embora a pesquisa tenha sido realizada em um país específico, penso que o resultado não difere muito de outras regiões do mundo. Inclusive do Brasil. Creio que entre nós a grande maioria não vê desse modo. Mas há um número significativo de seminaristas dentro desse perfil. E não é difícil explicar o porquê.
Quando estava na CNBB, atuando justamente no então Setor de Vocações e Ministérios, nosso companheiro José Lisboa, a quem muito prezo e admiro, demonstrava uma enorme preocupação com certos tipos de ‘propaganda’ vocacional. Deparávamos com inúmeros cartazes, folders, páginas na internet de campanhas vocacionais. Uma grande parte desse material trazia fotos de casas bonitas, ou até luxuosas, quartos confortáveis, áreas de esporte, piscinas etc. Tudo para ‘atrair’ candidatos. O Lisboa sempre comentava: se alguém entra para um seminário ou casa de formação por causa desses atrativos, como esperar desse candidato o desejo de servir, a gratuidade, o ardor missionário? Será que aceitará trabalhar numa periferia, entre excluídos ou num país de missão? Terá a mística do serviço ao próximo, do lava-pés? Quase impossível!
Outro elemento que pesa bastante são os padres midiáticos. Pessoas que fazem sucesso na TV, no mercado da música, nas redes sociais. A própria mídia coloca esses padres como modelo e referência. Nunca aqueles que estão nas periferias, nas áreas de missão, nas paróquias mais simples. Muitos jovens procuram o presbiterato motivados por essa visibilidade, esse ‘sucesso’. Aí, entra fatalmente o carreirismo, o estrelismo, o uso da religião para se promover. Não é a busca de um Deus a quem quero servir, mas o servir-se de Deus e da fé unicamente para a realização pessoal.
Há ainda a questão no neoconservadorismo. Não são poucos os que sonham com a volta de uma Igreja triunfalista, piramidal, clerical, marcada pela ostentação e pelo luxo. Tempos atrás, em nossos encontros de presbíteros, tanto em âmbito local como nacional, era marcante a presença das livrarias e editoras, com muito material de estudo e aprofundamento. Atualmente os livros são ofuscados por uma avalanche de paramentos coloridos, vestes caras e finas, objetos dourados, verdadeiras boutiques do ‘sagrado’. É o domínio da estética e do luxo.
Embora a batina e o clergyman sejam vestes próprias para os clérigos, muitos seminaristas, antes mesmo da Teologia, já querem usá-los. E usam! Será mesmo o desejo de se identificar como um servidor do povo de Deus? Sinal de despojamento? Ou vaidade e desejo de status?
Tudo isso contrasta muito com o jeito de Jesus: pobre, simples, humilde, se misturando com pobres e pecadores. Usando a roupa que o povo usava. Desprezando qualquer tipo de grandeza e de poder. Fazendo da misericórdia e do serviço a sua IDENTIDADE. Esse é também o jeito de Francisco: “o verdadeiro poder é o serviço”. Isso agrada e faz bem a muitos. Mas também não deixa de incomodar a alguns…

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Influência da Música na Educação

Se a educação estética é importante para a vida, a música faz parte dela em todos os momentos. Por isso, é muito importante entender a importância da música e como ela nos influencia no dia-a-dia. A Estética, como sabemos, possui uma riqueza muito grande de formas de expressão: teatro, música, dança, pintura, arquitetura, poesia, etc. A expressão musical é uma manifestação artística que “sempre esteve presente em todas as realizações humanas, oportunizando suas expressões”[1].

            A música é a expressão artística mais presente no cotidiano das pessoas. Com exceção dos que nasceram portadores de deficiência auditiva, homens e mulheres cantam algum tipo de música, seja um trecho de uma grande composição como a abertura da Quinta Sinfonia de Beethoven, seja uma simples cantiga de roda, cada um de acordo com a sua capacidade.
            As possibilidades de educar através da música são infinitas. Utilizando a poesia musicada, os ritmos e melodias é possível propor reflexões, obter ensinamentos, aprofundar informações, transmitir mensagens importantes para transformar atitudes e comportamentos. Se olharmos a discografia da música brasileira, encontraremos uma enorme riqueza de temas, ritmos, melodias e sons que comportam mensagens educativas, falam de situações da vida, transmitem um sentimento de esperança e uma palavra de conscientização, enfim, expressam verdades sobre a vida. Alguns grupos e bandas brasileiros, especialmente da MPB (Música Popular Brasileira) o fazem com muita profundidade e conseguem atingir um número significativo de jovens. Desses grupos podemos citar obras tais como: “Pra quem tem fé” (O Rappa), “Pais e Filhos” (Legião Urbana), “O que é o que é” (Gonzaguinha), “Lavagem Cerebral” (Gabriel, o Pensador), “Caçador de Mim” (Milton Nascimento), “Tocando em Frente” (Almir Sater) e tantas outras.
            Além de ser um aliado importante para a educação e o desenvolvimento da pessoa, a música pode ser utilizada como terapia pois contém propriedades terapêuticas importantes para ajudar na superação dos seus traumas físicos e psicológicos, no relaxamento, no descanso mental e corporal, além de atuar na prevenção de doenças. Surge aí a Musicoterapia que é “o uso da música para melhorar o funcionamento físico, psicológico, intelectual ou social de pessoas que têm problemas de saúde ou educativo. Pode então ser definida como “um processo de intervenção sistemática, na qual o terapeuta ajuda o paciente a obter a saúde através de experiências musicais e de relações de se desenvolvem através delas como as forças dinâmicas para a troca” (Bruscia, 1998)[i]
            Se observarmos os grandes shows musicais, veremos um envolvimento quase total de cada pessoa no momento da execução da obra. Tal envolvimento é capaz de fazer expressar sentimentos e emoções em gestos, palavras, gritos histéricos, pulos, lágrimas, sorrisos, coreografias e até violência. Para isso, basta que o artista tenha em mãos a capacidade de conduzir as pessoas para tais objetivos. Portanto, a pessoa que está nesse contexto musical é convidada a abrir-se para acolher o conteúdo proposto, a deixar-se envolver pela “viagem” musical, levando-a a fazer uma experiência estética prazerosa de significado único. Essa realidade pode ser utilizada na formação ou educação estética, buscando promover na pessoa a sua maturidade humana.
Música e educação fazem uma parceria inseparável no desenvolvimento de cada pessoa. Quando escolhemos uma música para “curtir”, estamos selecionando um material importante na construção do nosso ser. Assim também, cabe aos educadores e formadores de opinião ter o cuidado de selecionar e oferecer o melhor, afinal são capazes de influenciar as decisões e comportamentos de seu público.

Diác. José Torres, CSsR.
Musicoterapeuta


[1] Dinéia URBANEK e Maria Terezinha PARZIANELLO. “Arte-Educação”. URL Internet: http://www.fepe.org.br/artes.htm

[i] Bruscia, KE. Defining Music Therapy, NH: Barcelona Publishers, 1998

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Quem tem medo da participação popular?

Quem tem medo da participação popular é quem consegue neutralizar o poder da democracia mediante sua perversão pelo poder do dinheiro, do monopólio da mídia.
por Emir Sader
A proposta do governo da formação de Comitês de Participação Popular foi seguida por editoriais furibundos da mídia, como se se estivesse atentando contra os fundamentos essenciais da democracia brasileira. Os mesmos editoriais e colunistas que passam todos os dias desqualificando os políticos e a política, o Congresso e os governos, reagem dessa forma quando se busca novas formas de participação da cidadania.

O que está em jogo, para eles, é o formalismo da democracia liberal, aquela que reserva para o povo apenas o direito de escolher, a cada dois ou quatro, quem vai governá-los. É uma forma de representação constituída como cheques em branco pelo voto, sem que os votantes tenham nenhum poder de controle sobre os eleitos,  no máximo puni-los nas eleições seguintes. Um fosso enorme se constitui entre governantes e governados, que desgasta aceleradamente os órgãos de representação política. Cada vez menos a sociedade se vê representada nos parlamentos que ela mesma escolheu, com seu voto.

Acontece que as formas atuais de representação política colocam, entre os indivíduos, a sociedade realmente existente, e seus representantes, o poder do dinheiro, mediante os financiamentos privados de campanha. Grande parte dos políticos são eleitos já com a missão de representar os interesses dos que financiaram suas campanhas.

Criou-se assim um círculo vicioso: processos viciados de eleição de políticos já nascem desmoralizados. A direita adora porque é fácil desgastá-los. E política, governos, Estados fracos, significa mercados fortes, onde reina diretamente o poder do dinheiro.

Os Conselhos de Participação Popular são formas de resgatar e fortalecer a democracia e não de enfraquecê-la. Toda forma de consulta popular fortalece a democracia, dá mais consistência às decisões dos governos, permite ao povo se pronunciar não somente através do processo eleitoral, mas mediante seus pronunciamentos sobre medidas concretas dos governos.

Quem tem medo da participação popular é quem consegue neutralizar o poder da democracia mediante sua perversão pelo poder do dinheiro, do monopólio privado e manipulador da mídia. Tem medo os que se apropriam dos partidos como máquinas eleitorais e de chantagem política para obtenção de cargos, de favores e de benefícios.

O povo não tem nada a temer. Tem que se preocupar que esses Conselhos sejam eleitos da forma mais democrática e pluralista possível. Que consigam a participação daqueles que não encontram formas de se pronunciar pelos métodos tradicionais e desgastados da velha política. Especialmente daquela massa emergente, dos milhões beneficiados pelas políticas sociais do governo, mas que não encontram formas de defendê-las, de lutar por seus interesses, de resistir aos que tentam retorno a um passado de miséria e de frustração.

Só tem medo da participação popular quem tem medo do povo, da democracia, das transformações econômicas, sociais e políticas que o Brasil iniciou e que requerem grande mobilizacoes organizadas do povo para poder enfrentar os interesses dos que se veem despojados do seu poder de mandar no Brasil e bloquear a construção da democracia política que necessitamos.

domingo, 30 de março de 2014

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O CHEIRO DAS OVELHAS E O PERFUME DO EVANGELHO

O Papa Francisco é um fenômeno indiscutível, tanto no mundo religioso quanto secular. É um homem de fina percepção das realidades humanas, sensível aos acontecimentos mundiais, com ampla visão sobre os sistemas que atingem as sociedades e o indivíduo. Em sua Exortação “Apostólica Evangelii Gaudium”, tratando sobre a “transformação missionária da Igreja”, diz que a Igreja deve estar em constante atitude de saída de si mesma para evangelizar com alegria e ousadia evangélica a todos, sem exceção. Assim, “a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. Os evangelizadores contraem assim o “cheiro das ovelhas”, e estas escutam a sua voz” (Cap I).
Para Francisco, todas as mudanças devem acontecer “a partir do coração do Evangelho” que é “a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado”. Se a evangelização não for motivada a partir disso, “a mensagem correrá o risco de perder o seu frescor e já não ter ‘o perfume do evangelho’”. E para exalar esse aroma evangélico, é preciso que aconteçam urgentes transformações que atinjam todas as instâncias da Igreja: as paróquias as comunidades de base e movimentos, as Dioceses, os bispos, como também o papado.
“Cheiro de ovelha” e “perfume do Evangelho”, termos que revelam profundidade no processo de evangelização. O olfato é um dos sentidos que nos ajudam a conhecer e experimentar as realidades da vida, do mundo em que vivemos. No sentido figurado, é o instrumento essencial para a eficácia do evangelizador, do pastor, do profeta, do sacerdote.
A tarefa do evangelizador pode ser análoga ao trabalho do perfumista, que combina os diferentes cheiros para produzir o perfume com o aroma desejado. Não se trata de forjar alhures uma fragrância para impô-la em oposição ou negação ao “cheiro das ovelhas”.  Evangelizar é a capacidade de potencializar o “perfume do Evangelho” que já se encontra ungido nos corações humanos para que Deus receba e aspire e reconheça como seu o mais belo, nobre e agradável odor que O glorifica.
O olfato auxilia a construir a memória de fatos importantes da vida. A Eucaristia faz presente à memória do Sacrifício de Jesus na Cruz que salvou a humanidade. Pela Eucaristia celebrada nas comunidades cristãs, o aroma do Evangelho tem sabor de pão e vinho e é lançado e impregnado no corpo e na alma dos cristãos. Eucaristia tem cheiro de pão partilhado, de alegria comunitária, de encanto pelo Mestre, de fraternidade festiva, de gratuidade relacional. Cada ação inspirada pelo Evangelho, seja individualizada ou em grupo é o momento em que se exala as fragrâncias do Evangelho.
 O “Santo Sacrifício” é o momento de reconhecer, purificar e renovar o “perfume do evangelho”, que contém a “identidade odorífera” da morte e ressurreição de Cristo: as lágrimas, os prazeres e os sofrimentos do povo, são levados ao altar eucarístico onde é exalado como incenso saboroso que chega aos “sentidos de Deus” que os internaliza em seu bondoso coração. Todo sofrimento e toda alegria devem ser levados ao altar Eucarístico e celebrados com vivacidade, oferecidos como incenso saboroso que chega aos “sentidos” de Deus, que os recebe em seu bondoso coração. Podemos dizer que é estéril um esforço evangelizador que não seja fruto de muita oração, sem o profundo envolvimento dos agentes evangelizadores com o seu povo.
Quem se propõe ser evangelizador não pode viver “em gabinete”, distante do povo, sem o constante contato pessoal com seus irmãos. O resultado seria o mesmo de uma pessoa acometida de anosmia (pessoa que não sente cheiro e também tem seu paladar comprometido) querendo ser perfumista. É a relação de proximidade que vai criando afeto, sentimento de pertença e atitude de defesa do seu povo. Quem evangeliza apenas nos espaços virtuais, jamais será um “bom Pastor” que dá a vida por suas ovelhas, nunca sentirá o “cheiro das ovelhas” nem exalará o “perfume do evangelho”.
O Pastor que vive entranhado na vida das suas ovelhas, adquire identidade evangélica forte, resistente, segura, porque trará em si um pouco do “cheiro” do seu povo. Com o tempo; aos poucos vai aprofundando a sensibilidade necessária para perceber os gritos silenciosos e os sorrisos escondidos nos rostos que transitam. Assim, vai se aperfeiçoando na arte de sentir e perceber os sofrimentos e esperanças do seu povo. A comunidade que ele pastoreia o reconhecerá como Pastor, porque sua identidade exala do “perfume do Evangelho”
Com novos ares renovando a vida da Igreja, é tempo de ousar novas ações evangelizadoras e espalhar o “perfume do Evangelho” que é a essência da Palavra de Deus combinada com o “cheiro das ovelhas”. Que cada um de nós deixe-se penetrar do novo e agradável odor que renova, motiva e revitaliza a caminhada até o Cristo caminho, verdade e vida.

José Torres, CSsR


[i] Conferir: http://pt.wikipedia.org/wiki/Olfato