segunda-feira, 20 de maio de 2013

Homofobia, Modernidade e a Posição da Igreja


O facebook também suscita possibilidades para algumas reflexões.
Estamos vivendo novos tempos dos quais se ouve, de muitos, ser uma época de mudanças. De mudanças rápidas, de avanços tecnológicos, científicos, ideológicos. Mudanças que abraçam a sociedade moderna e, esta, diz seu sim à tamanha velocidade.
Recordemo-nos que há dez anos possuir um aparelho celular, por mais simples que fosse, era para poucos. Era artigo de luxo. Há vinte anos não se permitia nem pensar nessa possibilidade. Hoje, para ilustrar esta realidade, meus sobrinhos de nove e dez anos possuem celular.
Que bom seria se nossa mentalidade moral também acompanhasse essa velocidade de mudanças, acompanhando os avanços tecnológicos da sociedade moderna, sobretudo, no que diz respeito a assuntos que, infelizmente, ainda são tabus para nós, homens “ultra modernos” do avançadíssimo século XXI.
Ontem foi publicada uma matéria em um site de noticias sobre a aprovação do casamento gay nos cartórios do Brasil. A mídia televisiva também não deixou de mencionar. Toda a mídia estava focada nesse assunto, embora não mais do que na derrota do Corinthians. Futebol ainda é, para muitos, mais importante do que conquistas de direitos da minoria.
Mas uma boa discussão surge no facebook acerca dessa temática, a partir de um texto oficial da Igreja. Discussão esta que nos faz refletir e avaliar nossas posturas humanas e cristãs diante desse século de mudanças. Diversas ópticas são encontradas acerca dessa temática ainda tão polêmica. A instituição Religiosa, bem como a sociedade fortemente marcada pela cultura religiosa, carrega há tanto tempo seus estigmas.
A Igreja afirma que “Um número não negligenciável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas. Esta inclinação objetivamente desordenada constitui, para a maioria, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á para com eles todo sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar a vontade de Deus em sua vida e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar por causa de sua condição.” (CIC 2858).
É interessante perceber que, ainda hoje, há um clima tenso na sociedade laica acerca da Igreja quando o assunto é homossexualidade, embora há cerca de 20 anos tenha surgido um texto tão avançado como esse citado acima. A igreja mesmo antes de publicar esse texto já defendia o respeito às diferenças. Mentalidade alcançada como fruto do Concílio Ecumênico Vaticano II em meados da década de 1960.
Talvez essa defesa ainda seja muito tímida e essa seja a resposta que justifica esse clima tão áspero no meio popular em relação à Igreja. A verdade é que esse assunto ainda não é tratado com tranquilidade por nenhum de nós. Temos muito que aprender, não só com a Igreja, mas com o próprio Jesus de Nazaré que sempre acolheu o diferente. Ele não só os acolheu defendendo-os, mas inserindo-os, dando-lhes dignidade e vida, e vida em abundância. Foi com eles, com a minoria, os excluídos, que Jesus fez tantas vezes a sagrada refeição judaica. E hoje, quem pode sentar-se à mesa conosco?!
Pouca gente conhece esse texto do Catecismo da Igreja Católica. E pouca informação é transmitida com fidelidade ao espírito evangélico dos textos oficiais da igreja. A mídia tem a vocação de transmitir informações incompletas e a Igreja, por sua vez, tem a vocação de não tratar abertamente assuntos tão polêmicos. E os crentes continuam de olhos vendados, enquanto o embate entre Igreja e sociedade continua com grande vigor.
Eu só lamento que as pessoas só resolvam respeitar o diferente porque “está no catecismo da Igreja Católica”. Isso só mostra que aprendem muito pouco do evangelho, ou por que não dizer quase nada. Isso mostra o quanto somos desumanos e o quanto a tutela de uma instituição nos faz pobres. Ah se soubéssemos nos respeitar, enxergar o outro como nosso irmão pelo simples fato de sermos humanos (eu disse simples?! Sim! realmente deveria ser simples). Ah! se aprendêssemos a “amar como Jesus amou”, sonhar, pensar, viver, sentir, sorrir como Ele. Certamente não precisaríamos dessa tutela e não recorreríamos a esses recursos para sermos verdadeiramente humanos e acolhedores.
Não estou negando a importância dos escritos da nossa Igreja. O fato não é simplesmente respeitar o que está escrito, mas escrever sobre o respeito e isso a Igreja fez. Insisto que já deveríamos há muito tempo ter aprendido a lição sobre o respeito. Mas nunca é tarde. Ainda temos muito que aprender.
Vamos olhar por outra óptica. Na sociedade de duas décadas atrás, onde este problema ainda nem de perto era posto da forma como é hoje, os homens que escreveram o texto do catecismo já tinham a mentalidade do respeito à diversidade. Isto demonstra, de certo modo, uma avançada mentalidade.
Sempre haverão ópticas sob diversos ângulos e isso é muito bom, maravilhoso, enriquecedor. Novas visões deverão sempre ser bem vindas, desde que abram sempre a possibilidade de nos tornamos cada vez mais humanos. A lição de casa que a Igreja nos apresenta deve ser bem compreendida por nós e por ela mesma. Ela é mestra eficaz. Mas, você há de concordar comigo que, em 20 anos de escrita, pouca coisa (disse pouca e não nada, só pra deixar claro) foi ensinada, aprendida e muito menos pregada a favor desse assunto. E o contrário é verdadeiro! Haverá de concordar também que, mesmo tendo escritos bem avançados, há práticas que não condizem muito com esse escrito, em específico. Eu louvo a Deus que agora seja a hora do surgimento do novo, da abertura ao diálogo e que as mentes avançadas de outrora penetrem nos corações de hoje.
Afinal, devemos aprender com Jesus e com a Igreja que é meio eficaz para esse aprendizado. Acreditando nisso, é bom percebermos que é possível uma reflexão aberta ao mundo de hoje sem entrar em contradição com o que ela, a Igreja, aprendeu de Jesus antes de nós. O que é certo é que, de todos os lados, há pontos que precisam ser revistos.
Por Renato Azevedo