domingo, 21 de abril de 2013

Questionando nossa música católica


A música tem um poder transformador. Estudos diversos em torno dos sons e da música demonstram o seu poder terapêutico. São infinitas as possibilidades de transformação dos estados de ânimo, as mudanças de comportamento no ser humano e também nos animais e até nas plantas. A Musicoterapia é a disciplina por excelência capaz de observar essas transformações através de estudos e experimentos. Aliada a ela, outras áreas do conhecimento ajudam nas descobertas de novos caminhos de superação dos desafios que a vida nos impõem. Nunca houve uma diversidade de sons ritmos e melodias diferentes como na pós-modernidade. Vivemos num tempo de poluição de todos os tipos, incluindo a poluição sonora.

Constata-se que em nossas igrejas e comunidades católicas, graças a criatividade de seus músicos, multiplicam-se as canções, os ritmos, os novos estilos e autores e cada dia aparece mais jovens nelas mergulhados. No geral, são músicas de belas melodias, que impelem a certa mudança de vida; músicas para adoração, para pedir perdão, para aprender a perdoar, para superar um sentimento negativo, músicas que falam sobre Deus... a temática é infindável. São músicas de cunho religioso que, em grande parte tratam da relação “eu e Deus”.

Para onde a música católica está nos levando? Em que nossa juventude está sendo moldada? Em que rumo está sendo levada? As músicas católicas estão transformando os nossos jovens? Em que? Somente analisando suas mensagens poderemos obter uma resposta mais aprofundada, o que não é o objetivo deste texto. O conteúdo mais que a forma é o que desperta dúvidas.

Não discuto aqui a música litúrgica, o foco é questionar até que ponto estamos utilizando do poder da música para transformar  nossa juventude e os que delas estão se utilizando. O conteúdo expresso deveria ser capaz de transformar a “vida da pessoa toda” e não apenas a sua dimensão religiosa, afinal, esta, não é mais importante que as demais dimensões. Porque será que temos em nossas igrejas tanta gente se casando mas não sabe relacionar-se com o cônjuge?... jovens que celebram o Sacramento do Crisma e logo some da Igreja?...  Talvez seja a supervalorização da dimensão religiosa, esquecendo-se das dimensões afetiva, social, etc. Podemos cantar o amor de Deus por nós, a importância dos sacramentos, os milagres de Jesus... mas se a melodia não iluminar o chão da vida e a pessoa não for capaz de lidar com suas questões sexuais, afetivas, relacionais, econômicas, intelectuais... a melodia da vida pode virar uma completa desorganização e desafinar o concerto da existência.

A impressão é que a maioria das músicas se propõem a afagar e fortalecer egos, o que a primeira vista pode ser muito positivo. Porém, pode levar a uma posição de conforto ou a um sentimento de saciedade, sem que leve a inovar e renovar o cotidiano. Assim, a música religiosa pode não inspirar nem mostrar caminhos novos para que as pessoas dêm passos significativos e transformadores, afinal elas ouviram apenas o que desejavam ouvir, faltando um contato fecundo com a poesia que as inspire na busca de outros rumos.  A visão reduzida só as faz patinar no lugar onde estão, afinal, quem pouco enxerga, pouco caminha.

Ademais, essa cultura frágil e líquida em que vivemos, não colabora para que surjam novos poetas, com novos conteúdos musicados, com poesia de qualidade. É difícil encontrar músicas com poemas admiráveis, com sabedoria e mística, com o encanto das perguntas. Os cantores e poetas mais admirados estão chegando ao entardecer da vida e estamos ficando com a mesmice periférica da pós-modernidade, que muitas vezes canta respostas de perguntas que não foram feitas. A música transformadora não é aquela que responde dogmaticamente as perguntas de alguém, mas é aquela que provoca a descoberta das questões até então não despertadas, impulsionando as descobertas de respostas e novas perguntas.

Música é também arte que alimenta a alma, a existência. Com ela, podemos transformar a vida das pessoas e mostrar-lhe novos caminhos, rumos diferentes e assim, desperta-las para a busca de sua realização. Cabe àqueles que têm em suas mãos o poder transformador da música, zelar pelo enriquecimento de suas obras não oferecendo o “feijão com arroz” sem que capriche com arte e sabedoria divinas o alimento melodioso da inspiração, da admiração, que provoque e não apenas console; que motive a descoberta das rotas do prazer da vida e não proponha sofrer; que leve a uma experiência de Deus e não apenas O adore. Músicas que alimentem e façam sonhar, pois quem é fecundado de sonhos possui força e motivação para transformar a vida e a realidade em que vive.

Ir. José Torres, CSsR.