Lá dentro, muita gente. Fui chegando mais perto da porta, algumas pessoas saíam, outras entravam. No entra-e-sai de pessoas, curioso, eu queria entrar para ver o que acontecia após a porta principal. Foi quando consegui enxergar na tela do projetor, cenas chocantes, de envergonhar e humilhar qualquer pessoa: cenas de uma criança de aproximadamente dois anos, mãos e pés amarrados, sendo abusada sexualmente por um homem... imagens e movimentos sem censura alguma. Três vídeos foram apresentados (embora eu só tenha visto dois). No recinto em que as imagens estavam sendo mostradas havia crianças, jovens e adultos. Adivinha aonde eu estava? Pasmem: no Fórum de Arapiraca - AL, diante da multidão que acompanhava atônita o final dos trabalhos da CPI da Pedofilia. Era domingo, dia 18 de abril.
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Presidida pelo Senador Magno Malta (PR-ES), o “show” daquele dia estava terminando. Enquanto os vídeos passavam na tela, o Presidente baixava a cabeça e olhava fixamente o público, como se quisesse ver sua reação. Senhoras e homens presentes tinham a fisionomia assustada, ficavam inquietos, tiravam o olhar da tela, se contorciam... era um espetáculo jamais visto. Todos os que acompanhavam aquele “julgamento” sentiam repugnância das imagens; alguns não ousavam olhar. Ao lado do Senador estavam o ex-monsenhor Raimundo (acusado), cabisbaixo, inerte; advogados, juizes, psicólogos, funcionários da CPI, familiares do Senador (que parece-me acompanha-lo nos trabalhos da CPI), policiais... e na platéia, o público que presenciava aqueles acontecimentos fortes e desconcertantes. Eu não conseguia acreditar que estava diante de um grupo de “homens da lei” que promoviam aquele espetáculo sensacionalista.
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Naquele momento eu me perguntava: essas imagens podem ser liberadas para mostrar publicamente? Não é crime veicular imagens desse tipo? Um político tem poder para liberar tais imagens em nome da lei? Foi ao menos assegurado que as crianças que ali estavam não deveriam ver tais cenas? Afinal, o que é a lei no país? Porque os advogados e o juiz que ali estava, não censurou as imagens? E o Ministério público, porque não agiu?
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Talvez o leitor não veja muito sentido nesses questionamentos, mas para quem viu os vídeos, jamais esquecerá a brutalidade das cenas de abuso sexual sem nenhuma censura. O objetivo da veiculação deve ter sido para chocar a população para que todos soubessem o quanto é animalesco e injuriosa a realidade da pedofilia. Puro sensacionalismo. Mas divulgar publicamente imagens de tamanha brutalidade? Os fins justificam os meios ?
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Horas atrás, aconteceu a cena da prisão do ex-monsenhor Luiz Marques, acusado da prática da pedofilia e de seus dois funcionários, acusados de mentirem. Veja a contradição da poderosa CPI: o Padre Edílson que confessou a prática sexual com os ex-coroinhas, está solto, enquanto o Padre Luiz Marques, de 82 anos, já no fim da vida, não oferecendo riscos ao convívio social, foi preso.
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Outra cena que chamou a minha atenção foi o discurso religioso exaltado e raivoso do Senador Magno Malta. Em nenhum momento percebi uma palavra que mostrasse a realidade dos sérios Padres e Pastores que são exemplo de vida e humanidade para o mundo. O que fez foi, em nome da defesa de inocentes vítimas de pedófilos, discursar contra a religião, usando o nome de Jesus, como a única verdade a se seguir. É claro que Jesus é o “caminho, a verdade e a vida”, ninguém chega a Deus se não for através dEle. Mas parece que está escondida atrás dessas afirmações verdadeiras a mensagem que sugere a degradação das estruturas religiosas, como se o motivo das perversidades humanas estivessem radicadas na religião.
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Não posso ser ingênuo e achar que toda essa onda de denúncias contra membros da Igreja seja motivada apenas pela defesa dos inocentes. Quem deve, tem de pagar, seja sacerdote ou não, mas não é justo que os sacerdotes católicos sejam vistos como pedófilos por que alguns clérigos infiéis cometeram crimes. Quem sabe o objetivo do “denuncismo” seja fazer no Brasil o que fizeram em alguns países como nos EUA, onde o Padre não pode sequer tocar em uma criança, para não ser denunciado.
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Este texto não quer ser uma expressão de defesa dos padres pedófilos. Pelo contrário, é impensável defender pessoas que burlam a naturalidade do desenvolvimento físico e psicológico de alguém de forma violenta para satisfazer seus desejos sexuais. Admiro e reconheço o trabalho valoroso e justo que o Senador exerce para o bem da humanidade, buscando os criminosos que violentam crianças indefesas. Se a pedofilia é inaceitável no nível laico, é mais grave quando esses atos são praticados por pessoas que deveriam proteger a inocência, ensinar o bom comportamento, formar nos bons costumes e, testemunhar o bem, a verdade e a fidelidade aos valores da Igreja, do sacerdócio e do cristianismo. Os sacerdotes, Pastores, pais e familiares que de forma criminosa praticam a pedofilia, devem ser severamente punidos por seus atos. Mas, o que está em jogo nesse momento triste e de pesar, é o uso dos fatos de forma sensacionalista para maximizar o problema da pedofilia no clero católico, encobrindo a verdade de que o maior índice desse crime está nas relações familiares: entre pais, primos, amigos, parentes... Isso não minimiza a seriedade das acusações de pedofilia, mas a atenção não pode estar concentrada no clero, pois, enquanto o foco aponta a Igreja, a raiz mais forte e de difícil alcance fica esquecida, promovendo mais violência contra os inocentes.
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Nessas denúncias contra membros do clero católico, observa-se uma forçada relação entre os crimes sexuais e a formação presbiteral e a postura pedagógica da Igreja. O discurso é montado visando fazer uma associação diabólica entre os males da humanidade e a Igreja. Isso é visível nas reportagens da televisão: denúncias de fatos verdadeiros com visão aumentada, misturadas com meias-verdades, questionamentos, casos surgidos há décadas e cenas chocantes. Assim, se fabrica um escândalo.
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É lamentável a atitude sensacionalista de mostrar imagens fortes de abuso sexual de crianças para uma platéia composta de pessoas de todas as idades, com o objetivo de chocar o público, como se houvesse necessidade de justificar as ações da CPI através das imagens. E mais censurável é a inoperância de autoridades presentes no Fórum naquele momento, que não se moveram contra esse flagrante absurdo. Porque?
